jAGuaDArTE - pOSsE dE rICarDo aLEiXo
   
Histórico
 


TINIEBLA

 

 

 

vacío hasta el

fondo

 

crispado en la

tiniebla

 

un día

mas des

 

lizase hacia

dentro

 

de uno

de los tres

 

caminos

sin vuelta

 

 

 

 

Originalmente intitulado “Treva”, este poema é de minha autoria. Faz parte de Trívio, lançado em 2001. Desde que meu querido amigo hispano-carioca Adolfo Montejo Navas – poeta, tradutor e crítico de arte – o verteu para o espanhol, com o fim de publicá-lo na antologia Correspondencia celesteNueva poesia brasileña (Editorial Árdora, 2002), passou a ser dele também. Publico-o, aqui, hoje, como uma forma de comunicar a Adolfo minha imensa consternação pelos acontecimentos de ontem em seu país. Perdoem o eufemismo (“acontecimentos”), mas não encontro palavra mais apropriada para me referir a ações inumanas como as que, mais uma vez, em nome de sabe-se lá quais “princípios”, ceifaram centenas de vidas.



Escrito por Ricardo Aleixo às 14h00
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EXTRA! EXTRA! EXTRA!

Povo de Jaguadarte City:

domingo que vem, 14 de março, Dia Nacional da Poesia,

tem poeminha do MÁQUINA ZERO no caderno Mais!

da Folha de S. Paulo. Confiram!



Escrito por Ricardo Aleixo às 12h32
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IDENTIFICAÇÃO POLICIAL

 

 

Este não é Dante.

Esta é uma fotografia de Dante.

Este é um filme, no qual figura um ator, que pretende ser Dante.

Este é um filme, no qual Dante faz o papel de Dante.

Este é um homem que sonha com Dante.

Este é um homem que se chama Dante, mas não é Dante.

Este é um homem que imita Dante.

Este é um homem que se faz passar por Dante.

Este é um homem que sonha ser Dante.

Este é um homem que se parece tanto com Dante que parece ele mesmo.

Esta é uma figura de cera de Dante.

Esta é uma criança substituída, um gêmeo, um sósia.

Este é um homem que se toma por Dante.

Este é um homem que todos, salvo Dante, tomam por Dante.

Este é um homem que todos tomam por Dante, só ele mesmo não acredita.

Este é um homem que ninguém, salvo Dante, toma por Dante.

Este é Dante.

 

 

Este poema não é meu. Este é um poema escrito pelo alemão Hans Magnus Enzensberger. Este é um poema que eu não posso ler no original. Este é um poema que só posso ler em português. Este não é um poema português. Este é um poema escrito em alemão por um alemão e traduzido para o português falado no Brasil por Kurt Scharf (um alemão?) e por (um brasileiro?) Armindo Trevisan. Este é um poema que decidi postar no meu blogue. Este poema agora é meu. Este é um poema que você está lendo como se fosse seu. Este poema é seu.

 



Escrito por Ricardo Aleixo às 12h16

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SÓ TÔ CONVERSANDO

Em matéria de “mineiridade”, o máximo que me concedo é a delícia de falar e escrever, de vez em quando, palavras como “indeusde”, “ocê” e outras de igual sabor. Pois bem, quem lê este Jaguadarte indeusde o início já deve ter topado com duas respostas extraídas da entrevista que concedi aos poetas Jorge Lúcio de Campos e Rodrigo Leão, para um livro que eles estavam – estão ainda? – preparando. Até para não correr o risco de escrever de novo o que já escrevi/disse alhures e algures, vai aí outro trecho da tal entrevista.

 

Quais seriam, no seu modo ver, as principais linhas de força e de fuga da poesia atualmente produzida no Brasil? De onde viemos e para onde vamos?

São muitas, e confesso que me falta conhecimento sobre a maior parte do que se tem escrito entre nós. Num país tão grande, como pretender que apenas os exemplos coligidos nas poucas revistas literárias e antologias em circulação representem, de fato, “a poesia brasileira contemporânea”? Sem me aprofundar muito, correndo mesmo o risco de pecar pela pressa, eu responderia que há pouca poesia digna de nota, hoje, no Brasil, que não tenha algum débito para com a vertente construtiva de nossa poesia. Se quiserem, anoto o nome do monstro: poesia concreta. Quem pode dizer que não topou com o paideuma concreto em algum momento de sua própria iniciação poética? Refiro-me não à mera emulação de procedimentos, estilemas e tiques “concretistas”, e sim à compreensão de que só se pode intervir crítica e criativamente quando se está de posse de um repertório amplo – mas nunca eclético –, capaz de transcender os acanhados limites “líricos” que caracterizam a produção da maior parte dos versejadores brasílicos. Ridicularizar os concretos, hoje, depois de tudo o que eles já nos deram, é fácil – e o que não falta é quem ainda se disponha a desempenhar esse papel. Difícil é provar que sem eles o desenvolvimento de nossa poesia teria sido mais rico. Quanto a mim, assumo que vim daí, dessa linhagem que reconhece em Gregório de Mattos nosso momento inaugural; que relê Sousândrade, Pedro Kilkerry e Ernani Rosas; que põe Oswald em seu devido lugar – o de único verdadeiro canibal de nosso modernismo; que dialoga de igual para igual com João Cabral de Melo Neto; que identifica em Caetano Veloso, um grande poeta-cantor; que alimenta a fome de poesia do jovem Paulo Leminski... Agora, dizer “para onde vamos” é tarefa que não encaro nem se me prometerem salário de deputado. Já disse em mais de uma ocasião que a riqueza da poesia brasileira contemporânea reside justo na sua diversidade, nas tais linhas de força mencionadas na pergunta anterior. Precisamos de tempo para ver onde é que tudo isso vai dar. A cena, por ora, é confusa demais: há um excesso de sinais sendo lançados e uma visível escassez de instrumental sensível para, pelo menos, ler corretamente esses sinais. Mas dou uma dica: nos últimos quatro, cinco anos, tenho me deleitado mais com a poesia furiosa de rappers como Mano Brown, Rappin Hood e MV Bill do que com essa versalhada intimista e autocomplacente que predomina hoje nas páginas das revistas e dos suplementos literários. E é claro que há poetas jovens escrevendo e publicando livros de excelente qualidade. Correndo o risco de fazer (mais) alguns inimigos, cito apenas um, que na minha opinião dá de dez na maioria dos versejadores em ação, hoje, no Brasil: Joca Reiners Terron. “Animal Anônimo” é um daqueles raros livros que, a cada releitura, se mostram mais potentes e belos.



Escrito por Ricardo Aleixo às 10h15
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ESTAR VIVO, VIVER

 

 

 

Eis a maior vantagem de estar vivo, viver: poder conviver com os vivos. Vantagem ainda maior é quando eles, além de vivos (e aí já adentramos o melhor dos mundos possíveis) nos agradam com seus talentos e sua generosidade. Primeiro foi o George Cardoso que criou a bela vinheta acima para “linkar” este blogue no “Armengue Press”. Depois fui citado num poema arrepiante de Wir Caetano (“Um preto”, que reproduzi aqui há dias). Anteontem foi a vez do Francisco de Morais Mendes fazer das suas, me oferecendo elogios em sua coluna no jornal “O Tempo”. Chico é dos grandes, é imenso: como pessoa e como escritor. Mal refeito de tantas – sinceras – emoções, cheguei ontem no blogue de Paulinho Assunção (o genial “Kafka sumiu”) para minha visita diária, e lá estava mais um de seus labirínticos textos – com a diferença de que era dedicado a mim! Só posso agradecer aos quatro por tantas alegrias: tudo isso é dez vezes melhor do que os sonhos mais delirantes de um certo menino antigo, quando ele começou a rabiscar seus primeiros poemas, lá pelos idos de 1977.



Escrito por Ricardo Aleixo às 06h53
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BLOGUES SÃO O RETORNO À PRÉ-HISTÓRIA

            Passei boa parte das férias tentando (e adiando) retomar um ensaio sobre as relações do artista com a comunidade, reunindo sem critérios científicos, mas apenas afetivos, ficção, mitologia e história. A proposta: conduzir o texto pela figura do contador de histórias, antes e depois da invenção da escrita. Lia, relia o que havia escrito, fazia anotações e punha tudo de lado, para perseguir nos livros mais pistas sobre o tema. No meio do caminho, uma recomendação (por outras razões) de leitura do escritor Sérgio Sant´Anna: “Formas breves”, de Ricardo Piglia. Anotei a sugestão, mas não passou uma semana, o Antônio Siúves me pede para resenhar o livro para este Magazine.

            Livro admirável, li com imenso prazer e a surpresa de nele encontrar alimento para o meu projeto. Em um diário, Piglia anota que “a escrita está na origem da divisão de trabalho, segundo Lévi-Strauss. Não há escrita sem opressão, sem desigualdades social, não há escrita sem Estado. Mas a escrita é vista também como a origem do espírito de rebeldia.” E citando Li Po: “Começou então a difundir-se o rancor de quem se esfalfava trabalhando para outros; tão engenhosa arte tendia diretamente a solapar as prebendas, os privilégios e o espírito dos poderosos.”

            Do mesmo Ricardo Piglia, encontro em outro livro, “O laboratório do escritor”, num pequeno ensaio sobre ficção e política na literatura argentina, um comentário sobre a sociedade sem estado e sem escrita. Tribos nômades, sem relações de obediência. O chefe não tem autoridade: “nunca tem certeza de que sua ordens serão cumpridas”. O poder é baseado na palavra. O chefe é o narrador da tribo. Conta histórias, ao amanhecer e ao entardecer, “e consegue fazer com que suas histórias entrem na grande tradição e sejam lembradas pelas gerações futuras”, mas não é sempre que recebe atenção da tribo. O poder do chefe acaba, quando outro, em outro lugar, passa a falar e recebe atenção da tribo.

            Com a civilização, a história muda.. Para Piglia, a ficção aparece como antagônica a um uso político da linguagem. A escrita contra o poder de que fala Li Po. Em nossa sociedade, com o grau de complexidade que se instaurou, fica difícil mesmo separar os jogos da escrita dos jogos do poder. Uma reflexão que mergulhe nessa complexidade terá que dar conta dos diversos lugares de “legitimação” do artista, do narrador, hoje sem as funções de chefe, de cacique, mas dependendo de um sistema intrincado de relações pessoais e políticas para ter reconhecimento, voz, auditório, cedê, filme, editora, etc, enfim, para chegar ao público.

            Fim das férias, guardo os papéis para outro carnaval. Segunda-feira, abro “O Tempo” e encontro a matéria de Pablo Pires, “Navegando na blogosfera”. Já li alguma coisa sobre blogues, mas nada que desse conta desse universo como o texto do Pablo. Já visitei blogs - a maior parte, naturalmente, terá destino irremediável -,  e, claro, montei pequena lista onde poderia ler quando quisesse os textos do Paulinho Assunção, do Joca Terron, do Ronaldo Bressane, da Ana Elisa e outros escritores cujo trabalho me interessa. Recentemente comecei a visitar o blogue do Wir Caetano e George Cardoso (com Renato Negrão). A matéria do Pablo me levou de volta à minha viagem. Ou eu estou delirando ou a cultura pode estar à beira de um delicioso precipício. O salto sobre ele nos levará ao encontro daquele cacique que fala o que quiser, para quem quiser ouvir. Com escrita, tecnologia e esse escambau que circunda a internet.

            Até então não sabia do blogue do Rique Aleixo (conhece email, Ricardo?). Pois fui visitar o blogue e encontrei lá as “Treze teses sobre blogues literários”. Sem saber ainda onde isso vai parar como mídia, as teses me anunciam que o cacique referido aí atrás reencontrou seu lugar. Com irreverência, humor e o espírito guerreiro de sempre, Ricardo Aleixo desenhou, em suas teses, o lugar, a circunstância e afinou os instrumentos para a batalha do simples contra o complexo.

            Reproduzo aqui algumas das teses, arrumo um título provocador para esta coluna, e posso voltar sossegado ao meu ensaio sobre o artista: “I - Blogues dão ao escritor o que ele mais afirma desejar: liberdade de publicar quando, o que e da maneira que quiser. V - Blogues fazem de cada escritor seu próprio editor, seu próprio distribuidor e, não raro, seu único, persistente e insatisfeito leitor. VII - Blogues, quando visitados (melhor ainda se foram deixados comentários!) levam seu dono a saudar, intimamente, o “admirável mundo novo que possui engenhocas assim”. X - Blogues conformam uma desenvolvidíssima forma de contato posterior às panelinhas literárias (e anterior ao início do verdadeiro diálogo entre os praticantes do ofício de escritor – entre eles e com o que, no passado recente, chamávamos de... público leitor)”.

 

 

 

 



Escrito por Ricardo Aleixo às 06h36

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A GEMA DO POEMA

Para o poeta Ricardo Aleixo

À caça de Kafka, passei pela morada-jaguadarte e lá grafei em saudações o nome carol, insisto, grafei carol no lugar onde o certo era estar o nome carroll. Talvez tenha sido obra de uma lupa opaca; talvez tenha sido o rato que rói de vez em quando o léxico. Talvez. O fato é que depois, súbito, num átimo, fiz do dedo um istmo sobre o mar aberto do teclado, fui rápido, quase um corisco, mas grafei de novo o quisto que contaminara por inteiro o abecedário — saiu o nome caroll onde o certo era estar o nome carroll.
Oh, Lewis, oh, Carroll. Feroz Jabberwocky. Gárgula dos mares, gorja das tempestades. Valente mistura de jaguar e jubarte — precisão do ataque com a elegância do jogo, dupla combinação de “Rs” e “Ls”, letras nos espelhos de outras letras, símile de símiles, buraco negro por onde entrou Alice, chuva de meteoros no canino dos “Rs”, lambida erótica da língua na parelha de “Ls”. Oh, Lewis, oh, Carroll. Feroz Jabberwocky. Pupila de onça na noite dos fonemas, pegadas na areia do saara do idioma, gema do poema. Por isso, depois da flanela rubra sobre o sol dos óculos, depois de atravessar a selva labiríntica dos equívocos, envio ao poeta o mapa desse ir e vir verídico, embora cego; veraz, porém só alcançado pelo ir e vir do erro. E a corda do arco se fez tesa. E a flecha fez do trajeto a sua meta. [Paulinho Assunção & Legião]

 



Escrito por Ricardo Aleixo às 06h34
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TEMPO, TEMPOS

Ponteiros – Fora de casa, estou sempre com um relógio atado ao pulso. Consulto-o a intervalos mais ou menos regulares. Trata-se, apropriadamente, de um tique, já que se alguém me pergunta “Que horas são?” não sei responder sem olhar de novo o simpático aparelho. Viver não é preciso, já diziam os argonautas portugueses, de acordo com Fernando Pessoa. Viver é ao léu. Não ligo para a metáfora “tempo”. Me agrada é a dança dos ponteiros.

Música – O relógio mecânico e as barras de compasso são contemporâneos. Ambas as invenções datam de fins do século 14. Se é certo que a escuta regular da convenção “tempo” propiciou o surgimento da notação musical,  estudiosos como o físico Géza Szamor (citado por Heloísa Valente no livro “Os Cantos da Voz – Entre o Ruído e o Silêncio”) afirmam que foi a música o parâmetro utilizado no estabelecimento da noção de “tempo medido”. Tomara! Quantas vezes saímos de casa para trabalhar baseados na duração da música que toca no rádio... Dizemos para nós mesmos, embalados por aqueles sons que já conhecemos de cor: “Quando acabar essa eu saio...”

Viola – Uma das mais impressionantes instalações de Bill Viola intitula-se “Heaven and Earth”. Dois monitores de vídeo preto e branco, um suspenso sobre o outro, numa estrutura tipo coluna – mais um pouco e se tocariam – mostram imagens que se interpenetram, silenciosas: a mãe de Viola agonizante; o filho do artista nascendo, nove meses depois. No “Eclesiastes” (trad. Haroldo de Campos) se lê: “Geração-que-vai/ geração-que-vem/ e a terra/ durando para sempre”.

Agoras – Agora mesmo passa outro.” (Alguém, num ponto de ônibus). “Agora só depois de almoçar.” (Um adulto, para uma criança que insiste em ver televisão antes do almoço). “Agora mesmo fulano perguntou por você.” (Qualquer falante do português-brasileiro). “Agora você vai ver.” (Idem). “Tudo ao mesmo tempo agora.” (Arnaldo Antunes). “Passaram-se agoras” (Dorival Caymmi). “A imanência imediata do agora.” (Octavio Paz).

Korf – A muitos que conheço agradaria um relógio como o de Korf, “não-personagem” do alemão Christian Morgenstern (1871-1914). O que singulariza tal relógio é o fato de, nele, os ponteiros girarem “em dois pares – um a mais”. Mais importante ainda, “giram também para trás.// Se marcam duas – marcam as dez; se apontam o três – apontam o nove”, bastando “fixá-los, sem viés”, que “o medo ao tempo se remove.” Não apenas o medo ao tempo é removido, comenta o poeta e tradutor Sebastião Uchoa Leite (que observa a existência, em “Sylvie and Bruno”, de Lewis Carroll, de “um relógio mágico que reverte a ação do tempo, de modo que os acontecimentos se passam de trás para frente”). Resulta da inusitada invenção de Korf nada menos que a “anulação do tempo”.

A refutação do tempo – Eis uma tarefa que só aos grandes cabe cumprir. Borges, que amava Shopenhauer, assinaria de bom grado esta afirmação do filósofo alemão: “Ninguém viveu no passado, ninguém viverá no futuro: o presente é a forma de toda a vida, é uma posse que nenhum mal lhe pode arrebatar.”

O tempo circular –  “Aquele que acertou ontem a pedra que só hoje atirou.” Essa proeza se credita a Exu, o que propicia ou embaralha o comércio entre os deuses e os homens. Como é possível? Não é possível. Exu é o impossível. 

 



Escrito por Ricardo Aleixo às 08h08

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