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Histórico
 


NO ESPAÇO “ENTRE”: TORTOGRAFIA: POESIA

 

   

 

 

Em meio ao mar de tralhas “artísticas” sem nenhuma arte e de “poemas” sem poesia encadernados em forma de livro (quase sempre com muita pressa e, parece-me, nenhum prazer), surge, vindo de Curitiba, das mãos da artista plástica Eliana Borges e do poeta Ricardo Corona, uma obra que é um agrado para os olhos de quem sabe ler/ver proezas gráfico-visuais: Tortografia.

 

Composto pelo casal ao longo de dez anos, “com a pressa do prazer”, como frisou Corona, na apresentação, trata-se de um tipo de livro, ainda raro entre nós, que mescla com competência e sensibilidade os registros verbal e plástico/visual. Mais que isso: grafa e grifa o espaço “entre” essas duas hipóteses criativas – o quanto há de letra na imagem; o imagético que resta na letra, além & aquém de sua função imediata.

 

Interessa-me, em particular, a vontade de dissolução da autoria que organiza o livro. Perder o nome, perder a posse de um objeto (um poema, uma imagem), perder-se até não mais poder, para se reencontrar, talvez, num outro e, assim, tornar-se, simbolicamente, um outro. Adoro situações como essa, em que a única analogia para a criação/recriação/transcriação artística só pode ser, mesmo, o amor - com todos os seus riscos.

 

Claro que quem conhece a obra individual de Eliana Borges e Ricardo Corona saberá distinguir, em Tortografia, o que é/era de um e o que é/era de outro. Quando menos, porque vários trabalhos já foram publicados em revistas, inclusive na excelente Medusa, hoje extinta, que os dois publicaram, nos anos 90, junto com os poetas Rodrigo Garcia Lopes e Ademir Assunção. Mas é bonito contemplar as obras e tentar encontrar nelas algum traço, rastro, indício de “outridade”. Poesia é a melhor forma de definir trabalhos como esse.

 

 

 

 

 

 

 



Escrito por ricardo aleixo às 22h46

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AUGUSTO DE CAMPOS ENCONTRA JIMI HENDRIX

ASA LINDA

 

Ela voa

pelo ar

com um circo azul

no seu olhar

 

Borboletas & zebras & luares

e um carrossel

é tudo o que ela quer pensar voando

pelo céu

 

Se estou só

ela vem pra mim

com sorrisos vem

pra me amar

 

Tudo bem meu bem

tudo bem assim

tome o que você quiser de mim

asa linda

 

Voe

até o fim

voe

até o fim

 

 



Escrito por ricardo aleixo às 11h40
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UM ARTISTA SENSÍVEL E COMPETENTE: TIAGO ARARIPE

 

 

Para muitos, os anos 80 podem ser chamados de “a década perdida" da música brasileira. Discordo. E cito, no contrapé, um exemplo que basta por si só: o da Lira Paulistana. Tantos são os artistas e grupos de peso ligados ao movimento, e tamanhas são as diferenças estilísticas entre eles (Arrigo Barnabé, Itamar Assumpção, Rumo, Premeditando o Breque) que a tendência é, injustamente, lançar para a ala dos invisíveis craques com o cearense Tiago Araripe. E olhe que a batalha desse extraordinário cantor e compositor já vinha de longe: desde 1973 ele estava em São Paulo, para onde fora atrás de uma vaga na escola de música criada por Tom Zé. A escola já não existia, mas o mais cosmopolita dos músicos nascidos no sertão da Bahia o recebeu de braços abertos e violão na mão. Daí surgiram canções como “Conto de Fraldas”, muitos toques, participações em shows e a oportunidade de convívio com outros nomes importantes da cena cultural paulista. Com Décio Pignatari, Tiago inclusive compôs as músicas “Teu Coração Bate, o Meu Apanha” e “Drácula”. De Augusto de Campos, ele recebeu, de presente, uma bela versão de “Little Wing”, que figurou no repertório de “Cabelos de Sansão”, de 1982, um LP de canções compostas, cantadas e tocadas num idioma poético-sonoro próprio. Repleto de pequenas jóias, é um disco maduro, de um artista sensível e competente que já contabilizava muitas horas de vôo, sozinho ou integrando grupos como Papa Poluição. No apoio, uma constelação rara de se ver e ouvir: os guitarristas Felipe Ávila e Luiz Brasil, o baixista Cid Campos & mais uma penca de músicos que é até sacanagem não citar. Vale a pena garimpar nos sebos, enquanto não sai a reedição em CD. Leiam o que conversei, por e-mail, com Tiago Araripe, hoje de volta ao Ceará.

 

Você participou ativamente da Lira Paulistana. Que avaliação faz daquele período?

A chamada Vanguarda Paulistana foi um período exuberante e pouco difundido fora da cidade de São Paulo. A convergência se dava principalmente no Lira Paulistana, pequeno teatro na Praça Benedito Calixto. Por lá passaram trabalhos inovadores e de qualidade: Grupo Rumo, Itamar Assumpção e Banda Isca de Polícia, Arrigo Barnabé, Tetê Espíndola, Premeditando o Breque, Língua de Trapo, Papa Poluião e muitos outros. O meu disco, “Cabelos de Sansão”, foi o segundo produzido pelo selo “Lira Paulistana”, depois do ótimo “Beleléu”, do Itamar.

Há quantos anos você está vivendo no Ceará e o que tem feito aí?

Estou no Ceará desde dezembro de 1995, depois de 23 anos em São Paulo. É a primeira vez que moro em Fortaleza (sou de Crato). Fiz algumas apresentações musicais na capital, tenho um filho cearense que estará com sete anos ainda este mês, sou diretor de criação de uma agência de publicidade. Há uma composição de minha autoria prevista para abrir o novo filme de Rosemberg Cariry – “Cine Tapuia”, em produção.

Como estão os planos para o relançamento de “Cabelos de Sansão”?

Imaginei uma nova roupagem para o disco, lançado originalmente em 82. O CD terá inclusive novo nome: “Diogo quer brincar”, uma das faixas mais recentes, gravadas no Ceará e produzidas por Manasses. Há um texto de apresentação do Zeca Baleiro, que tem uma relação forte com velho LP “Cabelos de Sansão”. Mas o CD enganchou na gravadora Atração, de São Paulo. Foi masterizado há bastante tempo, tem capa criada e ainda está sem lançamento definido. Depois de muitas cobranças à gravadora, sem maiores resultados, resolvi ficar “zen” em relação ao assunto. Agora é ver para crer. 



Escrito por ricardo aleixo às 07h21

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Conte como foi que “Little Wing”, de Hendrix, virou “Asa Linda” nas mãos de Augusto de Campos.

Eu costumava cantar “Lttle Wing” ao violão. Tenho uma boa ligação com essa canção. Na época eu morava em Vila Madalena, em Sampa. Algumas pessoas se reuniam no apartamento onde eu e a Mônica (mãe de minhas filhas) morávamos, na rua Girassol. Uma noite recebemos as visitas de Augusto de Campos, Arrigo Barnabé, Tetê Espíndola e Kledir (ou seria o Kleiton?). Rolou um violão, cantei “Little Wing”, e o Augusto, no ato, disse que faria a versão, parecendo adivinhar um velho desejo meu. No dia seguinte, manhã cedo, toca a campainha e lá estava o Augusto com a versão pronta. Cantei a nova letra, ele fez mínimos ajustes. Foi assim.

“Como pôde a perna andar/ sozinha/ se imaginando duas?” Esse fragmento de “Redemoinho” mostra o seu cuidado com as palavras. Como é sua relação com a poesia?

Você tocou em um ponto que prezo muito. E escolheu uma das músicas pelas quais tenho especial carinho. Minha relação com a poesia se dá sob esse prisma da palavra cantada, da busca de uma linguagem para a canção. Algo que numa determinada fase chamei de “Canção Sideral” (aquele leão no meio das estrelas não foi por acaso). Em “Redemoinho” e “Cine Cassino” se pode perceber isso. São canções com imagens fortes, sugestivas, que ampliam as possibilidades de percepção. Essa que você cita busca uma nova forma de falar da solidão. O arranjo de cordas foi inspirado em “Eleanor Rigby”, dos Beatles.

Sua voz – aguda, cristalina – também chamou muito a atenção quando você surgiu. O próprio Augusto, num ensaio, faz referência ao seu timbre peculiaríssimo. Você estudou canto?

Estudei apenas um ano, em São Paulo, com Cláudia Mocchi, talentosa professora de Ná Ozetti, Suzanna Salles e Virgínia Rosa. Mas isso já foi bem depois de “Cabelos de Sansão”. Diz a lenda familiar que eu comecei a cantar antes de falar, e que no primeiro aniversário entoei o baião “Calu”, sucesso na voz de Luiz Gonzaga...

Você continua compondo? Mantém contato com os músicos com quem fazia parceria nos anos 70 e 80?

Continuo compondo. Fiz uma série de músicas tendo como tema importantes cidades cearenses, em um projeto para o governo do Ceará. Para mim soa como um resgate dos sons regionais que me marcaram desde a infância. Fiz parcerias com o Zeca Baleiro, que espero gravar no momento oportuno. Tenho contatos eventuais com Tom Zé e com Chico César, bem como com José Luiz Penna, parceiro de quando tínhamos o Papa Poluição, e Jorge Alfredo, com quem fiz “Coração Cometa”.

E a cena de música no Ceará? Tem muita coisa interessante por aí?

É impressionante quantos valores existem à margem da mídia, essa senhora decrépita, vesga e meio surda que não cansamos de cortejar. Há um grupo performático da região do Cariri, o Dr. Raiz, que mescla raízes populares da cultura e sons contemporâneos. Vi apresentações emocionantes de Abidoral Jamacaru, cearense do Crato, e do sempre renovado Fausto Nilo. O Ceará tem grandes músicos. O violonista Manassés, instigante. Acordeonistas como Adelson Viana, Waldonis e Ítalo Almeida. Uma cantora excepcional – Fátima Santos, que veio do Rio Grande do Norte. Tem o Graco, David Duarte, Kátia Freitas, Mona Gadelha... Isso sem falar no acervo cultural em que todos nós podemos nos abastecer: as bandas de pífanos, os reisados, os penitentes, as cantadoras de coco...

 

 



Escrito por ricardo aleixo às 07h18
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