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Histórico
 


UMA PEQUENA (MAS SIGNIFICATIVA) CONQUISTA

 

O Ministério da Cultura (MinC) anunciou hoje os nomes dos 25 membros da Câmara Setorial do Livro, Literatura e Leitura, que será empossada nos próximos dias e começará a trabalhar imediatamente. A escolha dos nomes levou em conta a necessidade da presença do Estado, do Setor Privado e do Terceiro Setor e, ainda, por um outro recorte, assegurou a participação dos diversos elos das cadeias produtiva do livro e mediadora da leitura e também foi contemplada a questão da representação de todas as regiões do País. No formato aprovado pela Secretaria de Políticas Culturais do Ministério da Cultura e Fundação Biblioteca Nacional, também foi incluída a expressão Literatura, conforme reivindicação apresentada pelos escritores. [Nota extraída do boletim do programa Fome de Livro, do Ministério da Cultura].



Escrito por rcrd às 21h50
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Na pELe dAs pAlavrAs – EntRe eLAs

 

Quem acompanha o trabalho que nos oferece com surpreendentes competência e refinamento o poeta, tradutor e ensaísta Claudio Daniel (São Paulo, safra de 1962), decerto fica sem compreender a razão do silêncio em torno de seu nome, em debates que se pretendem sérios sobre a poesia brasileira contemporânea. Afinal, poucos, como ele, têm se empenhado tanto na escolha de um caminho pessoal que não implique, em contrapartida, como é tão comum entre nós, na recusa do diálogo com projetos criativos diferentes do seu.

 

Basta observar a dedicação com que Cláudio se entrega à tradução de nomes pouco conhecidos no Brasil, como os do cubano José Kozer (em parceria com Luiz Roberto Guedes), do uruguaio Eduardo Milan e, em colaboração com Fabiano Calixto, do dominicano León Félix Batista. Registre-se, ainda, sua atuação como antologista (Na Virada do Século, Poesia de Invenção no Brasil, em co-autoria com Frederico Barbosa, lançada pela Landy em 2002) e editor, à frente da revista eletrônica Zunái, junto com Rodrigo de Souza Leão.

 

É, assim, com grande alegria, que leio o livro mais recente do poeta paulistano, Figuras Metálicas – Travessia Poética. Em primorosa edição da Perspectiva (coleção Signos, agora dirigida por Augusto de Campos, que substitui seu irmão Haroldo, falecido em 2003), o volume reúne toda sua poesia até o presente: de Yumê (1989) ao conjunto de inéditos Pequenas Alucinações. Em breve nota que publiquei, há tempos, sobre um de seus livros, defini o poeta como “sutil articulador de harmonias fônicas”. Vejo-o, da mesma forma, como o requintado realizador de um “quasi-cinema” composto só por palavras distribuídas na página. O processo composicional de Claudio Daniel tem, ainda, nas vertiginosas torções sintáticas e na desreferencialização da linguagem dois outros recursos recorrentes, que lançam o leitor, para usar palavras do crítico João Alexandre Barbosa, na orelha do volume, “no tumulto das sensações gravadas na pele das palavras”.

 

Vide, nessa linha, o poema “A Sombra do Leopardo”, que traz, em sua seção II, a enigmática pergunta: “Que voz (branca/ noite) em algaravia,/ que olho-lábio-mão/ afinal, a dizer o entre/ pele-nervos, a dizer/ solitude solitude/ de membranas?”). Tudo é muito sutil no jogo verbal do poeta: no período acima e em muitos outros momentos de sua escrita, importam, antes e acima de tudo, as relações que cada vocábulo estabelece com os demais, permitindo ao leitor montar seus próprios roteiros de leitura, sua própria “música visual”. Se esses procedimentos podem, eventualmente, conduzir a soluções que mais se assemelham a meros esquematismos verbais? Claro que sim, existe tal risco. Por exemplo, o final do poema “Branco”, admirável (“Toda memória/ é um jogo/ de armar, sem as peças”), é que o recupera do puro obscurantismo instalado por imagens como “Mudez de mangusto ou árvore,/ talhado silêncio ao ignorado/ - diga cetáceo cetáceo,/ menos animal/ que imaginário,/ esboço de desenho de lagarto (...)”.

 

Mas que não se pense, a propósito desse poeta a todos os títulos raro e essencial, que ele escreve no vazio histórico, como tantos de nossos contemporâneos, que nos dão não mais que sofríveis - ou até passáveis, vá lá - covers dos beats, de Paul Celan, de Georg Trakl e de Drummond de Andrade. Por mais desreferencializada que seja a escrita de Daniel, ela é fruto de uma consciência de linguagem que opera a partir da fusão de pólos aparentemente antitéticos, como a poesia concreta, o neobarroco, o surrealismo, as poéticas orientais e outras correntes.

 

Contemplar o estágio atual de sua já longa travessia significa entrar em contato com o que a geração de poetas a que se vincula Claudio Daniel ostenta de mais precioso: a inquietação estética – que considera o poético como parte de uma herança cultural comum, aberta ao diálogo e passível de novos usos. Fiquem, para finalizar, como demonstração da perícia técnico-formal do poeta de Figuras Metálicas, com um de seus poemas mais realizados, o extraordinário "Formiga": “Pequeno dragão/ doméstico.// Cabeça grávida/ de hibisco.// Rústico abdome-/cogumelo.// Escava o incerto/ dos dias,// para a trilha/ vertical// de farelo, fúria/ e folhas.// Carrega seus mortos/ nas costas,/ com precisa/ geometria/ de fábrica/ fúnebre.” [Ricardo Aleixo]

 

 

 

 

 

 



Escrito por rcrd às 16h58
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