jAGuaDArTE - pOSsE dE rICarDo aLEiXo
   
Histórico
 


uMa pOeSiA sEm pAi nEM

  

 

Quase uma arte é a nova coletânea de poemas de Paula Glenadel, lançada pela coleção “Ás de colete”, editoras 7 Letras/Cosacnaify, 2005). Da poeta carioca eu já conhecia, além de poemas esparsos, seu bonito livro de estréia, A vida espiralada, de 1999. No novo trabalho, me atrai, primeiro, o título, tomado de empréstimo da famosa frase-emblema de Mallarmé, no prefácio a “Um coup de Dès (“hoje ou sem presumir o futuro que sairá daqui, nada ou quase uma arte”).

 

Viu bem o prefaciador Marcos Ciscar, para quem a atitude de Paula Glenadel “restitui ao sempre já passado do futuro mallarmeano (em outras palavras: nosso presente) a sua parte de enigma, de fértil hieróglifo”. Correto. A poeta, ao se valer da dita frase para dar nome às suas coisas-palavras, faz pouco caso de sua “porção emblema” e investe, com notáveis ganhos, em sua “parte de enigma”. Discordo de Ciscar apenas quando ele afirma, ao elogiar a “coragem” de Paula Glenadel, que a poesia teria dificuldade, no Brasil, de “escapar da tirania das filiações”.

 

Penso que muito da melhor poesia nossa, hoje, resulta justo do esforço de relativização dessa suposta “tirania das filiações”. Quando menos porque já não figura, no âmbito da poesia brasileira, nenhum “pai todo poderoso” – e porque mesmo os modelos tradicionais de paternidade vêm sendo progressivamente relativizados ao longo das últimas décadas. Dado significativo que se pode apontar, entre nós, é, ao contrário, o modo como não poucos poetas contemporâneos – alguns, de forma totalmente livre e álacre – decidem ter não um, mas vários “pais”, para desgosto dos críticos que ganham a vida (e perdem o bonde) com seu enfadonho cover de Harold Bloom. 

 

E aí volto a Paula Glenadel. O poema de abertura de seu livro, “Ao que não pôde ser”, toca, a partir de uma experiência concreta de perda, a nota mais sensível da difícil peça para solista que – de qualquer ângulo – é a relação com o mote da paternidade/maternidade: “outono lilás, prado mal florido/ é preciso que se diga// imagino-te à vontade/ filho ou filha/ para que possas enfim ser/ mãe ou pai// serei filha desse filho/ filha dessa filha”. Perder, em poesia, é poder ter. Querer ser “filha desse filho/ filha dessa filha” que se perdeu é gesto, esse sim, de extrema ousadia: aceitar como guia aquele/aquela a quem estávamos destinados a guiar pela vida.

 

Valha uma sugestão de leitura: tomar o poema (cada um deles, no que têm de irrepetível) como “pai/mãe” de quem o escreveu, não como filho/filha, “criatura”. O vivido – o perdido, o desejado, o imaginado, o lembrado, o entreouvido, o visto – sendo, aí, também, “quase uma arte” (“na invidência sigo/ desejando que a planta/ parta da pedra”, lê-se em outro poema).

 

Gosto, também, muito, da maneira como a poeta tenta apanhar o mundo no espaço do salto entre um instante e outro, uma instância e outra, como nesta mântrica passagem de “Isso”: “eu é apenas lá onde isso sente dor/ eu é apenas lá onde isso está em júbilo”. Ou em “Mitológica”, bela – porque marcada pela indeterminação – tematização da errância: “é mais ou menos assim/ só não está bem claro como/ você entra na caverna reformada do ideal/ busca um oco onde calar tanta prosa (...)”. Com enganadora simplicidade, a poesia de Paula Glenadel, como ela diz, sobre o escrever, em “Litania”, “desafia e afina o hieróglifo”. 

 

 

PS: Escrevi e postei esta resenha aqui, no jaguadarte, no ano passado. Reproduzo-a pelo fato de Paula Glenadel, com seu Quase uma arte, ter sido incluída na lista dos autores que concorrem ao prêmio Portugal Telecom 2006.

 

 

 

 

 

 



Escrito por ricardo aleixo às 05h49
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nÃo-fiCçÃo

 

2

 

Um nome

Masturbava-se furiosamente, sempre como se fosse a última ou a primeira vez. Certa noite, tamanha foi a entrega ao vai e vem alternado das mãos que, ao esporrar, pronunciou - meigo, soluçante, grato - seu próprio nome.



Escrito por ricardo aleixo às 13h18

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rOda

 

Já estão disponíveis as duas edições mais recentes da revista RODA – Arte e cultura do Atlântico negro, publicada pela Fundação Municipal de Cultura, no âmbito da terceira edição do Festival de Arte Negra de Belo Horizonte. O segundo, que destaca na capa e no pôster a obra do escultor Jorge Luiz dos Anjos, traz poemas de Chacal e Paulo Leminski, miniantologia da poeta afro-escocesa Jackie Kay, em traduções de Virna Teixeira, entrevista com Wagner Carvalho, diretor artístico do festival de dança brasileira “move berlim”, cartum de Cau Gomez, ensaio de Antonio Risério, conto de Alberto Mussa e tal e coisa e coisa e tal. A terceira edição é iluminada pela presença, na capa e no pôster, do centenário presépio do Pipiripau, criação ímpar de Raimundo Machado de Azevedo. Destacam-se, ainda, a miniantologia da poesia angolana, preparada por Claudio Daniel, poema inédito de Fabrício Marques, entrevista incendiária com o filósofo e militante negro Marcos Cardoso (saca o título: “Pensar o racismo, pensar a ‘branquitude’”), cartum de Maurício Pestana, ensaios de Prisca Agustoni e Maria Nazareth Soares Fonseca, um fragmento do primeiro romance homoerótico da literatura brasileira (“O bom crioulo”, de Adolfo Caminha, publicado em 1895) e o escambau. Gratuita, a revista RODA pode ser solicitada à Diretoria de Ação Cultural da Fundação Municipal de Cultura. Email: diac.fmc@pbh.gov.br.



Escrito por ricardo aleixo às 07h02
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