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o lAbel de doLabeLa
"o poeta não busca obra mas crise"
O ano de 2006 se vai sem que tenha havido registro crítico à altura da importância do lançamento da antologia poética de Marcelo Dolabela, um dos poucos poetas relevantes, hoje - não só no inofensivo país das belas letras apelidado Minas Gerais, como no Brasil inteiro. Lorem Ipsus - Antologia poética & Outros poemas que traz, no canto inferior direito da capa, a indicação de que representa a "Sétima edição / Tetralogia Minimemória / Vol. 2", vem a público na seqüência de Letrolatria, reunião de poemas visuais, lançado em 2000, e antecede dois outros trabalhos, ambos no prelo: o CD duplo Substância, com o material sonoro produzido com os parceiros do grupo musical Divergência Socialista entre 1982 e 2002, e As cutículas de Eurídice (epigrama, haicai e micrologia). Para começar, digo que considero um crime de lesa-poesia o silêncio que cerca a iniciativa "minimemorialística" do poeta mineiro (nascido em Lajinha, 1957, e radicado em Belo Horizonte desde a década de 1970), que sob nenhum argumento pode ser relegada a segundo plano - como vem ostensivamente ocorrendo -, sobretudo neste ano enriquecido pela mais que oportuna publicação de Como é que chama o nome disso, antologia de outro nome fundamental da poesia brasileira contemporânea, o paulista (São Paulo, 1960) Arnaldo Antunes.
"palavras escritas em restos de nuvem"
É notável o esforço de Marcelo Dolabela em tentar atribuir sentido de coesão à sua produção tão vasta quanto desigual, em termos não só de fatura, como também da diversidade de recursos empregados. Ao contrário do que levavam a pensar suas pequenas edições, quase clandestinas, em suportes diversos (livro-objeto, cartaz, xerox, CD, revistas), Marcelo quer ser lido, quiçá lido com alguma sensibilidade, sem pressa nem aprioris. Raros são os criadores, afinal, dentre os que verdadeiramente contam, no Brasil da segunda metade do século XX em diante, que terão obtido tão poucas respostas por parte do sistema literário quanto o sempre instigante poeta de Lorem Ipsus. E é claro que tanto silêncio - muitas vezes, laboriosamente ensaiado - pesa na cabeça e no coração. Tem, portanto, seu quê de acerto de contas - consigo mesmo e com o indistinto não-leitor essa "hora da memória" que o poeta se permite. Como se, com tal gesto, anunciasse o início do preparo do laboratório (do label, melhor dizendo) para novas invenções.
"meu nome como / sinônimo de / quase / nada"
Na quarta capa, o poeta (que, como eu já chamei atenção em outro texto, tira partido tanto das siglas de seu nome quanto do sobrenome em si, reduplicando-os em emblemas de inequívoca filiação artística: M.D. remete a Marcel Duchamp, enquanto Dadolabela, com que assinou alguns trabalhos, vai um pouco mais além, na trilha da tribo dadá) conta os motivos que o levaram a promover esta nova re-visão de sua obra: "Busquei uma biopoeticografia, projeto arriscado, mas necessário. Hauri, selecionei e editei cada 'samba, suor, lágrima, sangue e', por que não?, 'cerveja' que há em cada gota de um poema." Mas é bom observar com cuidado as pistas falsas a que podem nos induzir projetos de antologia curados pelos próprios poetas, principalmente esses, como Dolabela, treinados nas artes & manhas do despistamento. No texto de introdução à obra, a poeta e ensaísta Gláucia Machado explica o significado da expressão latina ("Lorem Ipsus Lorem Ipsus Lorem Ipsus: palavras usadas para preencher espaços em lugar do texto definitivo, no esboço que antecede o layout, na criação publicitária"), com o fim de afirmar que o nome do livro deve ser lido como "um aviso de que aquilo que lemos está no lugar de outra coisa: espécie de projeto inacabado, texto provisório".
"Ser vanguarda não é contar nonada"
E não há como ser de outra forma, em se tratando de um artista empenhado até a medula no tensionamento de uma das principais questões colocadas em cena pelo maravilhoso "século passado": a dissolução de fronteiras entre as artes, entre estas e as demais formas de produção de conhecimento, entre arte e vida. Da terra em transe que é o domínio genericamente definido como "arte experimental", Marcelo Dolabela sonha com uma "revolução permanente" que tem como meta ir (muito) além das cartilhas da avant-garde tornada clássica, porquanto se enfronha perigosa e gozosamente pelos territórios do pop - ou de um de seus subprodutos, a poesia dita marginal, se nos ativermos apenas ao contexto brasileiro.
"quem sabe o mundo não é pelo avesso"
Assim, longe de preparar sua antologia como um memorial que lhe concederá, enfim, um lugar no podium dos poetas, Dolabela reafirma, com Lorem Ipsus, que fez como fez, que faz como faz, que fará como fará, independentemente de haver quem avalize seu cheque-mate. Seu "faça você mesmo" é o do punk rock sem deixar de ser o dos cubo-futuristas russos, com suas samizdat (auto-edições). A radicalidade do projeto, aqui, está menos no gesto de se auto-editar, e mais na decisão de se rever enquanto sujeito por meio daquilo que escreve e edita (na total acepção do termo - que o computador recupera - e não apenas no sentido restrito e restritivo de "publicação"). Se, no meio do caminho, é a pedra bruta da auto-ironia que sopra na orelha do poeta versos como os "Autobiografia lapidar", de 1993 ("que um dia eu receba/ da morte o abraço / e ouça o mote:/ chega de fracasso."), a quem ou a qual força se deve creditar a origem do esplêndido poema "Dolores Duran" ("fazer terremoto e neblina/ navegar sempre em vão/ a palavra mais doce/ a palavra mais vida/ a fina palavra não")? [Nota: os versos entre os parágrafos são de poemas de M.D.. Foto de Guto Muniz].
Escrito por ricardo aleixo às 08h40
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"O" BRoWn
Mesmo não tendo sido, na juventude, um black na acepção do termo, eu sempre soube reconhecer a grandeza da arte sem par de James Brown. Ontem, por puro acaso, comprei na banca de jornais perto de casa um DVD da série "Legends in Concert", com a íntegra de um concerto oferecido por Ele na década de 80. Deixei para ouvir a preciosidade depois da ressaca natalina, mas o destino (outro nome para acaso?) foi mais rápido. Leio, agora, na internet, que James Joseph Brown morreu nesta madrugada, aos 73 anos de idade, vítima de pneumonia. Dele, a melhor imagem que guardo liga-se à visita que fiz, em julho deste ano, ao poeta Augusto de Campos. Depois de me mostrar sua biblioteca e parte de sua discoteca - ambas extraordinárias -, Augusto (que, filho de mãe com ascendência irlandesa, tem Browne no nome) põe para tocar no seu computador um clipe de Brown, creio que da música "I Feel Good". Comento, fascinado, que, embora seja conhecida sua enorme admiração por outro James (Marshall Hendrix) da música, eu jamais imaginaria que seus interesses sonoros fossem, hum!, tão longe. Sorrindo, nosso mais importante poeta vivo me chama a atenção para a complexidade da arte vocal e corporal do semeador da Grande Árvore cheia de galhos chamada black music e conclui, olhos fixos na pequena tela: "É um dos grandes".
Escrito por ricardo aleixo às 12h17
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